
O trio de protagonistas brincando de esconder seus olhos
Dizem que a maioria dos filmes refletem a época em que são lançados. Mesmo se estamos falando de filmes de época, sempre dá-se um jeito de colocarem alguma crítica contemporânea de maneira à se fazer paralelos com os dias em que é lançado.
Cavaleiro das Trevas é um bom exemplo disso. Como já falaram tudo o que tinham que dizer dele, sobre ser um marco nos filmes baseados em HQ, sobre o roteiro magistral etc, vou me ater às comparações inevitáveis dos Coringas.
A morte lamentável do Heath Ledger, antes de conseguir ver seu legado ao cinema, tornou o filme o mais esperado do ano, e o ator foi protagonista de uma das maiores viradas de mesa que se tem notícia. Interpretar o Coringa, marcado por um astro como Jack Nicholson deve o ter assustado de início, afinal, o personagem e o ator estavam alçados à um patamar meio mitológico desde o lançamento do primeiro Batman em 1989. Por isso, o pé atrás de muitos com a escolha do Ledger. Inclusive quando saíram as primeiras imagens dele como Coringa, diziam que estava horrível, e que o batom parecia ter sido passado por alguém com Parkinson. Ok, nada como o tempo pra se desfazer primeiras impressões. Heath Ledger não só incorporou o Coringa, como atropelou o mitológico Jack Nocholson em um dos seus personagens mais marcantes.
Porém, será que é justo dizermos que o Coringa anterior foi superado? Mais uma vez voltando ao início: ambos os filmes refletem épocas distintas separadas por quase duas décadas. O Coringa de Nicholson era mais caricato, e tinha uma certa aura de ingenuidade. Seus brinquedos refletiam muito isso. Já o atual é chamado de terrorista, é o caos personificado, o medo, um mundo pós-11 de setembro, paranóico, com cidadãos fora do controle. Eu diria que a composição do novo Coringa é algo como Javier Bardem fez em Onde os Fracos Não Têm Vez, onde eu havia dito aqui no blog que ele personificava a violência sem explicação. Ledger encontra paralelos no assassino brutal do filme dos Coen, mas em Batman, seus efeitos são potencializados, já que envolve toda Gotham e coloca inclusive personagens secundários e figurantes diante de decisões importantes. Aqui cabe um comentário que li no Discreto Blog da Burguesia, muito bem observado pelo Rodrigo, sobre o Dilema dos Prisioneiros. O filme acaba sendo um exemplo brilhante para aulas de Economia.
É por isso que são mundos diferentes. Sentimentos diferentes porém passados na mesma cidade, Gotham, que é uma alegoria de todas as grandes cidades. Sendo assim, acho que Ledger merece receber sim a coroa de maior Coringa do cinema, mas não porque superou em interpretação o anterior. Jack Nicholson fez o que tinha de ser feito naquele momento e o adjetivo de "insuperável" pairou sobre ele por anos e anos. Ledger merece receber como prova da mudança do mundo. Além de ter entregue uma atuação brilhante logicamente, ele é o símbolo de um tempo em que as coisas evoluíram para algo muito pior, e como ele mesmo diz no filme: sem volta.
Nota: 86

A turma de "Nowhere in Africa" com o Oscar em 2003: tirando o prêmio do Brasil?
Atenção, novas regras para o Oscar do ano que vem. Apesar de já terem sido divulgadas um tempinho, acabamos não comentando por aqui.
Pois bem, a primeira delas é com relação à canção. A partir do Oscar 2009, apenas duas músicas por filme poderão ser indicadas. Caso haja uma terceira música bem votada, ela será desconsiderada e a próxima canção com mais votos (de outro filme) será indicada. Isso é especialmente direcionado à dois casos recentes: Dreamgirls e Encantada. Ambos os filmes tiveram 3 canções indicadas, mas nenhuma ganhou. Aliás, isso dá a chance de boas músicas não ficarem de fora, como por exemplo, as da trilha de Na Natureza Selvagem, um atentado ocorrido esse ano.
A outra regra é com relação à filmes estrangeiros, esta mais interessante para nós. Essa regra veio no bojo de ausências importantes na lista final dos indicados ao prêmio, como Cidade de Deus, Volver, 4 Meses 3 Semanas e 2 Dias e por aí vai. Até 2008, os filmes indicados e o vencedor eram totalmente escolhidos por um grupo especial votante da categoria. Agora o processo será mais complicado, mas aparentemente muito mais coerente com os gostos em geral. Os 9 finalistas à disputa para as 5 indicações serão selecionados da seguinte maneira: o comitê especializado em filmes estrangeiros escolhe 3 finalistas, e os outros membros da Academia escolhem mais 6 finalistas, desde que eles tenham assistido a um número mínimo (não divulgado) dos filmes na disputa. O voto final dos 5 indicados e do vencedor será dado pelo comitê de produtores cinematográficos. Os 9 finalistas que me referi acima seria algo como uma "peneira", onde O Ano que Meus Pais Saíram de Férias acabou passando esse ano, mas no final, não entrou entre os 5.
O que acham das novas mudanças?

Enquanto preparo a minha mala e a encho de coisas desnecessárias, sigo como quem não quer nada pisando nas salas de cinema. De vez em quando numa cabine (o que tem tornado-se cada vez mais raro, por incrível que pareça) e outras em estréias seguidas (para infortúnio, algumas não tão boas assim). Em dados momentos a televisão a cabo tem sido de grande ajuda, às vezes assisto filmes que nunca ouvi falar (australianos, finlandeses, argentinos e tantos outros etc.) e outros que muitas vezes constam na minha prateleira para revisão quando quiser. Não atento o tempo todo, resolvo falar apenas daqueles que figuraram pelas salas de cinema.
Puritanos egoístas se esquecem que “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” é diversão e que não podemos cobrar o vovô Harrison Ford (que se estivesse na minha família seria bisavô já) de trazer um personagem revigorado e coerente com sua idade. Se quiserem os filmes de antigamente, exijam outra pessoa para o fardo (o que não deve demorar)! A fórmula é a mesma: piadas, perseguições, cobras, etc. De novo mesmo só o chapéu e chicote a ser passado e finalmente um casamento. A história se atualizou (não apenas no contexto guerra fria, mas também do artefato que estão atrás) e não perdeu o vigor, apenas envelheceu com seu personagem, o que é muito bem-vindo. E espero que até Sean Connery consiga enxergar que Spielberg (e um pouco do Lucas) souberam aproveitar o que criaram na década de 1980 sem forçar a amizade.
Outra seqüência é “Sex and The City”, que migra das telas de televisão para o cinema. Como grande parte das séries da HBO, não segurou pudores para falar palavrões e mostrar genitálias em nus frontais memoráveis. Entretanto o filme vai um pouco além, a lacuna que ficou durantes os anos que as amigas Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha ficaram separadas dos espectadores trouxe algo novo (não apenas se sustentando em referências a série para se tornar um episódio ‘esticado’, como muitos gostam de salientar para criticar). A essência da série num todo está lá: moda, glamour, amores e sexo em pequena proporção (aliás, para as personagens principais sexo falta mesmo). Claro que dessa vez apostando mais no drama (e devo dizer que a cena em que Carrie encontra o noivo fugitivo, amparada por suas amigas, foi um ápice do drama que realmente me chocou, tanto na cena em si quanto nas interpretações, não esperava tanto) do que na comédia. Contudo quando os traços de humor figuram temos um grande embate entre o conservadorismo e a futilidade. Os extremos que a série sempre fez questão de jogar um contra o outro e até seguindo juntos. Todavia, o filme não se prende apenas ao grande acontecimento, enquanto um casamento acontece, os outros parecem fadados ao fracasso e o teor cosmopolita não se prende a imagens da cidade, mas é ilustrado pelas descrições de cada personagem (Carrie com sua ambição inicial ao chegar em NY, Miranda e o Brooklin e por aí vai).
A seqüela (no português de Portugal) que não segue o original, e até o ignora, é “O Incrível Hulk”. Não existe uma (nova) origem, nessa película uma rápida introdução é apresentada para refrescar a memória dos espectadores. Bruce Banner realmente está na América do Sul, mas no Rio de Janeiro e não na floresta como julgou correto Ang Lee. As diferenças são evidentes, um apostava mais no drama psicológico (Ang Lee) no quê de O Médico e o Monstro e o outro vai além desse drama; joga mais ação, humor e referências para os fanboys (algumas: o Líder, a S.H.I.E.L.D, Os Vingadores). Entretanto umas das coisas que mais incomodam em ambos os filmes é a edição, se por um lado o filme de Lee insistia em dividir a tela como se fosse uma HQ, esse novo traz pouca tensão e cortes esquisitos para as cenas de ação/perseguição. O humor é simpático, não chegando aos pés de Homem de Ferro (aliás, a breve participação de Stark devora todo o humor do filme) e o romantismo entre Banner e Ross é até sensível, entretanto Liv Tyler é apenas bonitinha e não consegue dar uma pose respeitável como Jennifer Connelly. A luta entre Abominável e Hulk não empolga tanto, mas só de ouvir “Hulk Smash” (na voz de Ferrigno, que também faz uma participação bem humorada) toda a batalha valeu a pena.
Voltamos à NY pelo olhar de um cineasta veterano que nos presenteia com o melhor filme do ano até agora: Sidney Lumet e seu “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”. A narrativa entrecortada explora pouco a pouco a situação de cada personagem. Andy (Philip Seymour Hoffman) e sua aparente calma, antes apático e calculista trajando seu terno e gravata, são abalados pelo desespero crescente quando o dinheiro fácil não traz felicidade, mas infortúnios. Enquanto Hank (Ethan Hawke) é um homem sem expectativas na vida (frouxo como todos os personagens do filme o classificam), trabalha e vive como burro de carga para a ex-mulher e ser amante da mulher do irmão. Lumet cria o ambiente claustrofóbico perfeito; os interiores: salas com grandes janelas que criam a alusão à liberdade e os planos contra a luz mostrando algo inalcançável, duro e plástico. O inferno aqui não é onde estamos, mas como estamos. Com uma narração carregada de tensão opressora, ao optar por mostrar diversos ângulos de uma mesma situação (fazendo com que assim a antecipação por uma conclusão seja adiada e assim suprindo as dúvidas de que realmente não há fuga), a história simples de um roubo a joalheria da família, transforma o plano de Andy e Hank em um verdadeiro mar de erros rumo ao inferno, levando a família inteira à decadência.
Por fim não vale a pena falar sobre “Fim dos Tempos” de M. Night Shymalan. Personagens contraditórios com interpretações tenebrosas, cenas “chocantes” que não chocam tanto, teorias furadas e um desfecho fora de contexto. Ou ele realmente queria fazer um filme com tom de "Marte Ataca!" (que é bom, vejam bem), ou sei lá o quê (e olha que para escrever essa última frase eu hesitei, mas realmente, se ele não sabe o que quer, eu não sei o que eu assisti: uma comédia, um drama, um suspense ou uma paródia dele mesmo). E olha que eu não odiei nenhum dos trabalhos anteriores, inclusive gosto de "A Dama na Água" e "A Vila".
Fora os filmes que indico, ou não (como diria Caetano, se é que ele disse isso), fica a dica do blog formado por aglutinação de Luis Calil, Fabiano Ristow e Rodrigo Pinder.

Shia, Ford e Allen: areia modeviça!
Confesso que estou bastante aliviado escrevendo sobre o novo filme do Indiana Jones. Depois de descrever meu medo com relação à ele, minhas persepções começaram a mudar assim que o símbolo da Paramount virou aquele montinho de areia e uma toupeira saiu de dentro dele. E depois vieram os créditos iniciais, coisa que é praticamente abolida nos filmes de hoje. Sim, estava realmente vendo outro filme do Indiana Jones no cinema!!
Além de ser um exercício de nostalgia, afinal passaram-se 18 anos desde que vi A Última Cruzada na tela grande, o filme conseguiu resgatar o termo aventura, mantendo-se fiel aos preceitos originais: homenagem aos filmes dos anos 30 e 40, flertando com o Filme B. Harrison Ford está muito bem, que em certa altura esqueci que já estava com mais de 60 anos. A volta da Karen Allen também foi bastante foda, especialmente na cena em que ela faz cara de apaixonada depois dele falar que todas as mulheres tinham um defeito: não ser ela.
Já o personagem do Shia, apontado como o sucessor, também esteve bem. Aliás, o Spielberg faz uma brincadeira no final com o fato dele provavelmente ser o próximo Indiana Jones. Mas isso, como o próprio diretor disse, vai depender do público (a.k.a. bilheteria).
Até agora, a melhor sequência de perseguição, pra mim, tinha sido a dos carrinhos na mina em O Templo da Perdição, mas dessa vez, acho que a sequência na floresta, entre os carros, está lado a lado. Mas o filme é perfeito?? Não, infelizmente há defeitos. Cate Blanchett está um pouco caricatural demais, embora tenha presença forte na tela e o personagem do William Hurt está meio deslocado e me trouxe algumas dúvidas como: por que diabos ele não entrou na cidade se ele sabia como fazer isso?
Enfim, mas o importante é que o filme manteve o nível dos anteriores, usando da mesma fórmula, coisa que está sendo motivo de críticas negativas, já que não há inovação (seria o mais do mesmo). Mas em se tratando de Indiana Jones, acho que inovar é que seria um ponto negativo, pelo menos pra mim.
Portanto está dado o veredito: Indiana Jones voltou por cima e provou que continua sendo sinônimo de filmes de aventura. Escrever sobre o final seria estragar pra quem não viu, mas adianto que tem referências a filmes anteriores de Spielberg. A foto que eu coloquei, de areia movediça (areia movediça!!), é uma homenagem à sequência mais hilária do filme.
Nota: 76

Como posso me desculpar pela ausência nos últimos tempos? Claro que posso relatar minhas férias do mundo cinematográfico, o que geralmente é a minha desculpa para não pisar (teclar, digitar, redigir) nesse blog. Acontece que dediquei o pouco do meu tempo vago para atividades lúdicas e isso com certeza não é crime. E quando pensei em lúdico abri diretamente o Houaiss, para ver se eu ainda tinha noção do significado e finalmente percebi que o Última Sessão não tem entrado na definição: "3. que se faz por gosto, sem outro objetivo que o próprio prazer de fazê-lo". Não que o cinema esteja perdendo sua força comigo, continuo nas jornadas de ver e rever, porém com menos freqüência, talvez por simples vontade de hiato ou por simples capricho de ter companheiros talentosos levando nas costas. Uma das minhas atividades extra-blogueiras é, ironicamente, postar em um blog-website (Meia Palavra), como estou atento ao que acontece por lá e é um trabalho voluntário, não queria abandonar no primeiro mês, então virei minha atenção para livros, teses e ensaios visando escrever artigos mais elaborados (e não complexos, por favor). Só que me aprofundei tanto que ao escrever o terceiro ensaio/coluna amarelei e da pior maneira! Li um texto fraco, cheio de cortes e falta de referências, ou seja, pensei ter perdido a aura de pesquisador que pretendo seguir ano que vem (com uma pós-graduação, quiçá um mestrado). Relutei. Percebi que esse espaço é sim para diversão, mas daquele tipo que quando leio penso: "poderia ter escrito melhor", e no artigo seguinte ele aparece com mais consistência.
Vamos ao que interessa nesse mundo que mata a imaginação. "Crimes e Pecados" (1989), de Woody Allen, figurou pelo TC Cult e pude perceber como ele perdeu o tato em "Match Point" (2005). Enquanto no primeiro temos duas tramas que só se encontram no final, no segundo temos uma história de grande introdução para tentar criar um suspense. O ponto de virada do filme estrelado por Scarlett Johansson é quando Nola (Johansson) decide revelar seu caso com Chris (Jonathan Rhys Meyers) para a mulher dele, nesse tempo Chris enrola a amante até planejar o assassinato a melhor maneira de "Crime e Castigo" (livro que aparece diversas vezes nas mãos de Chris). Acontece que esse ponto de virada é o pontapé inicial para "Crimes e Pecados", Dolores (Anjelica Houston) decide revelar seu caso com Judah (Martin Landau), além de contar os diversos atos ilícitos que o tornaram rico. Em paralelo um cineasta (Allen) frustrado vê como última chance fazer um documentário sobre um produtor de TV, casado com a mulher que ele ama. O plot é o mesmo, porém usando o ponto crítico da situação do adultério logo no começo da narrativa, Allen consegue aprofundar em temas que sempre lhe são bem-vindos: existencialismo, paranóia, amor, ódio, orgulho, etc. "Crimes e Pecados" não é apenas um filme de suspense sobre o que irá acontecer, mas pelo que poderia acontecer, o balanço entre as duas histórias, o torna um grande ensaio sobre a ambivalência de um ser humano, enquanto em "Match Point" o que interessa é o suspense cru com toques de uma traição ardente. Pelo que andei vendo de sinopses e trailer, "O Sonho de Cassandra" (2007) não foge dessa perspectiva de suspense levemente baseada em "Crime e Castigo". Para não parecer um verdadeiro plágio de Dostoievski, Allen sempre muda o foco, mas se é para continuar a homenagear fiquemos com "Crimes e Pecados" pela sua elegância e "A Última Noite de Boris Grushenko" (1975) por suas descaradas referências.
E há mais ou menos duas semanas atrás foi aniversário de "2001: Uma Odisséia no Espaço", filme que deixei esquecido na minha prateleira por dois longos anos. Porém a lembrança do seu 40º me fez perceber como mudei minha visão do filme e na última cena quase cai em prantos de tanto medo, emoção e tantos etc. A narrativa carregada pela trilha sonora é magnífica e as grandes referências a Nietzsche (no qual estava apenas sendo introduzido na época da última visita a película) fazem uma leitura muito aprofundada (homem e super-homem, evolução, Deus está morto, mas de acordo com as camisetas da faculdade de teologia: "Nietzsche está morto - Ass. Deus") do que sempre será a segunda obra-prima de Kubrick (alguém ainda dúvida que "Barry Lyndon" seja superior?).
Fora esses anedotas pitorescos, puros fogos de artifício (para parecer que assisto filmes importantes, sendo que eles são superpops, sem contar a citação do ilustre Nietzsche), vamos escancarar a faceta pop quando falamos de "Superbad - É Hoje", uma comédia que não é indie (ainda mais nos dias de hoje, se bem que os nerds estão presentes)! Contando a história sobre três, dois na verdade, amigos que precisam comprar bebidas para uma festa e se darem bem. OK, até aí isso não é novidade nesse gênero, geralmente mudamos o produto de consumo para drogas, camisinha, pornografia e mulheres. Porém o humor não chega ao nonsense sem graça com tiradas apenas adolescentes e humor escatológico. Fala sobre o tabu de amor e paqueras, amizades verdadeiras e compradas, "ser legal" e medo de crescer. Aliás, crescer e ser legal não é papel para os protagonistas Evan e Seth e sim para Fogell (que adota o nome de Mclovin) e os policiais Slater e Michaels (sendo agentes da lei, não querem parecer durões).
Esquecendo um pouco o cinema, recomendo o seriado "Em Terapia" que começou a ser exibido essa semana pela HBO, todos os dias às 20:30. A história segue as sessões de Paul Weston (Gabriel Byrne), um psicoterapeuta, e seus pacientes. Cada dia é um paciente diferente: Segunda-feira é dia de atender Laura, uma bela anestesista que se apaixona por Weston. Às terças, Alex um piloto arrogante que participou de uma missão no Iraque. A ginasta Sophie, vítima de um acidente, é ouvida às quartas-feiras. Às quintas Jake e Amy, um casal em crise. Sexta-feira é um dia atípico para Weston. Na ocasião, ele desabafa com a colega Gina (Diane Wiest - "Tiros na Broadway" e "Hannah e Suas Irmãs"), já que está se tornando intolerante e colocando em risco a própria carreira. Assim a escolha fica para nós telespectadores: quem queremos ver em tratamento? Claro que um dia as sessões de algum personagem vão acabar. A proposta é boa e bem executada. Não é um drama uma hora, mas cravado em trinta minutos. Só espero que não haja um deslize e Paul vire uma caricatura de psicólogos.
E vamos seguindo Cannes...
Ou não. O presidente do Júri do ano passado Wong Kar Wai estreiou no cinema de Hollywood com "Um Beijo Roubado". A proposta é indecente: diálogos fracos, trilha sonora repetitiva (e reprisando o tema musical de outro trabalho do diretor, Amor à Flor da Pele), uma massiva tentativa de mostrar as transformações do ser humano com o passar do tempo (esse negócio de música lenta + câmera lenta só deixa o lado brega do diretor evidente) e as coisas que deixamos para trás na tentativa de superar o passado. A fotografia é o grande atrativo junto com o diálogo entre Chan Marshall (Cat power) e Jude Law, aquilo sim é uma reflexão sobre o tempo e as pessoas, mas não salva o final piegas.

Hal e Emile tomando um sol
Gente, estreiou Speed Racer sexta passada, o que me fez recordar, já que o protagonista é o mesmo, de como Na Natureza Selvagem (Into the Wild) foi praticamente ignorado nos cinemas brasileiros (e do exterior também).
Ok, senti que o Sean Penn fica no limite da breguice e do piegas, que o filme peca de vez enquando em não ser sutil, abusa das tomadas do Emile correndo em câmera lenta e abrindo os braços em cima de montanhas e a câmera girando em sua volta, e etc e etc... MAS mesmo com tudo isso, o filme me destroçou. Voltei pra casa e nem sabia o número do ônibus que eu tinha pegado. Substituiria tranquilamente a indicação ao Oscar do Jonnhy Depp para o Emile Hirsch.
Enfim, esse post foi só para lembrar da existência do filme, que espero, tenha mais sucesso nas locadoras.
*ao som de Rise, Eddie Vedder*

A Palma de Ouro: mais chance para os brasileiros
E daí que ontem foram divulgados quais filmes abrirão Cannes, que começa dia 14 de maio e vai até dia 25, e Veneza, entre 27 de agosto e 6 de setembro.
Esse ano, a temporada de disputa pelos Oscars começará mais cedo porque a data da festa foi antecipada, por conta das eleições americanas. Com isso, Globo de Ouro e adjacências também tiveram suas datas antecipadas. O Oscar, quem diria, irá cair no domingo de Carnaval. Assim, Veneza acabará sendo uma disputa meio antecipada dos filmes americanos. E pra abrir, foi escolhido o novo filme dos irmãos Coen, Burn After Reading, com elenco bastante conhecido: George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand, John Malkovich e a recente oscarizada Tilda Swinton.
Agora, a melhor notícia pra nós, brasileiros, foi de quem abrirá Cannes: Cegueira! Sim, Fernando Meirelles e a adaptação do livro de Saramago estarão no tapete vermelho no Palais des Festivals no primeiro dia! Lembrando que Linha de Passe também estará na disputa pela Palma.
Berlim já consagrou Tropa de Elite. Se o Brasil levar Cannes, o que não será fácil, haja visto os concorrentes, será a primeira vez que isso acontece: dois dos três festivais mais importantes ter sido ganhos por filmes de diretores brasileiros.
Que venha Veneza!

Harrison Ford entre Shia LaBeouf e Spielberg: o peso do tempo
Esse fim de semana pude rever a trilogia do Indiana Jones, já que em maio, estreiará o quarto filme da série: O Reino da Caveira de Cristal.
Ao terminar o filme me bateu certa melancolia de ver o Harrison Ford hoje, um sessentão, voltar ao papel. Quer dizer, os filmes anteriores ele era a estrela, ele tinha um papel muito físico e as caras de cafajeste dele faziam as cenas ficarem mais engraçadas ainda. O humor nos filmes do Indiana Jones são importantíssimos.
O novo Indiana Jones provavelmente não terá o Harrison Ford como o centro de tudo e isso me deixa com uma sensação de passagem do tempo muito forte. A introdução do Shia LaBeouf no filme, como um possível sucessor, evidencia ainda mais isso. É como se quisessem continuar a franquia mesmo após a morte do Harrison Ford.
Apesar de ser o filme mais esperado do ano pra mim, estou carregado de incertezas e dúvidas quanto àquele clima nostálgico de aventura centrado no personagem principal que os filmes anteriores traziam. Será que o Shia tem carisma suficiente pra aguentar o tranco e receber a tarefa de ser o sucessor? Ou vai ser mais um Jar Jar Binks? Será que terão muitas piadinhas sobre velhice do Indy, fazendo a coisa toda cair mais pro melancólico do que pro engraçado?
Enfim, mesmo que o filme acerte em tudo, ainda vou estar vendo aquele herói de 20, 25 anos atrás, mostrando o que o tempo vai fazendo com as pessoas. Mas é a lei da vida. Os filmes tem o poder de imortalizar as pessoas como eram. No caso, a aposta será arriscada, porque na memória, não teremos mais o Indy antigo, jovem, dono de si, etc. Até poderemos ter, mas ele vai fazer companhia ao Indy atual, com fraquezas e limitações. Boa sorte e vida longa ao Ford.

Marion Cotillard fazendo história
E não é que eu gostei dos resultados?!
Acabei errando as atuações femininas, embora eu tinha dito que a Tilda Swinton pudesse ganhar, mas fiquei feliz de terem dado o Oscar a Marion Cotillard, segunda vez na história dos 80 anos de Oscar, onde uma atriz estrangeira leva falando na sua língua natal. Aliás, as quatro atuações premiadas, nenhuma era americana. Talvez refletindo aí um eleitorado cada vez mais internacional.
A cerimônia em si não teve nada de especial. Nenhum momento marcante, que emocionasse, a não ser o Oscar Honorário pro diretor de arte Robert Boyle e um ou outro discurso genuíno como a da própria Marion, que parecia não acreditar. Fora isso, Jon Stewart esteve mais à vontade, com relação ao Oscar 2006, mas eu sinto falta dos apresentadores palhações, como o Billy Crystal ou a Woopy Goldberg.
E não dá pra deixar de comentar que Onde os Fracos Não Têm Vez teve uma vitória merecidíssima, com os Coen levando Direção/Roteiro. Só fiquei meio assim, com o Transformers não levando nada.
Ah sim, uma dúvida: no momento do clipe dos 79 filmes ganhadores do Oscar de Melhor Filme, qual é aquela música? Faz 10 anos (sério) que eu quero saber que música é aquela!

A estatueta do Oscar, jovenzinha aos 80 anos
E chegamos mais uma vez em outra premiação do Oscar. Mais ou mesmo, de repente, mas há pontos que fazem desse ano, um pouco diferente. Foi uma época de pré-premiação um pouco estranha. O início dela foi marcado pela tentativa de suicídio de um dos atores mais promissores dessa geração (Owen Wilson); posteriormente outro ator jovem veio a falecer (Brad Renfro) e a temporada de tragédias culminou com a morte do Heath Ledger. Fora isso, houve também a greve dos roteiristas, que acabou ameaçando a própria festa do Oscar e trouxe prejuízo de US$ 2,5 bilhões, mostrando que a classe tem sim uma enorme força na indústria. Fora isso, o Oscar chega aos seus 80 anos, que por si só já seria uma particularidade.
Mas vamos à festa em si. Esse ano, tivemos uma ótima safra de filmes, alguns mais injustiçados que outros, mas faz parte do jogo, já que não há como saber o que os quase 6.000 membros estão pensando (ou se viram mesmo todas as centenas de filmes aptos para concorrer).
De acordo com os prêmios dados até agora, Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez) e Cate Blanchett (Eu Não Estou Lá) devem sair com os Oscars de coadjuvantes. É bom ressaltar que essas categorias sempre reservam surpresas, como Alan Arkin ano passado, quando todos indicavam Eddie Murphy, Marcia Gay Harden, que só havia ganho o prêmio do Círculo de Críticos de NY, James Coburn que não havia ganho nada até aquele momento e levou o Oscar de coadjuvante pelo Temporada de Caça, e etc. Mesmo assim, a categoria que pode dar alguma surpresa, pode ser a coadjuvante feminina, de repente, o prêmio indo pra Ruby Dee ou a Tilda Swinton.
Nos atores, há chances claras para dois candidatos em cada categoria. Em atriz, Julie Christie (Longe Dela) sai na frente por ter ganho o prêmio do Sindicato dos Atores, que representa 25% dos votantes da academia. Mesmo assim, a atriz Marion Cotillard (Piaf: Um Hino ao Amor) está bastante cotada. Marion tem contra ela o fato de ser estrangeira, num filme falado em sua língua natal. A única vez que isso ocorreu foi com a Sophia Loren, no filme Duas Mulheres. Porém, a Julie Christie já ganhou um Oscar de atriz, com Darling - A que Amou Demais, o que pode dar certa vantagem pra Marion. Em todo caso, aposto na Julie Christie.
Na categoria de ator, Daniel Day-Lewis era barbada até tempos atrás, mas rumores dizem que George Clooney conseguiu dar uma arrancada no final. Clooney é um ator super querido por lá, e com certeza teve muita gente que fez campanha por ele. Mas a atuação do Daniel Day-Lewis é tão magnífica que eu acharia sacanagem o prêmio não ir pra ele, mesmo ele já ter ganho um pelo Meu Pé Esquerdo.
No restante da premiação, pelo menos baseado nos prêmios de sindicatos e associações, o embate da noite deve ficar entre Onde os Fracos Não Têm vez e Sangue Negro. Porém acredito que o prêmio de Direção/Roteiro Adaptado/Filme fique mesmo com a fita dos Coen. Aliás, o Oscar quebraria uma tradição, dando o prêmio pra dois diretores. A única vez que isso ocorreu foi com o Amor, Sublime Amor, de 1961 (Jerome Robbins e Robert Wise), lembrando que ano passado, Pequena Miss Sunshine, de dois diretores, nem chegou a concorrer.
Como curiosidade desse ano, eu citaria as 3 canções indicadas do mesmo filme (Encantada). Como ocorreu no ano passado, pode-se dividir os votos e a música de outro filme ganhar. Outra coisa é o Kevin O´Connel, o cara chega na sua vigésima indicação pelo departamento de som sem nunca ter ganho nenhum prêmio, recorde absoluto; esse ano ele concorre com Transformers. Mas as estrelas mesmo serão os roteiristas, que provavelmente serão bastante aplaudidos quando forem receber seus prêmios.
Agora, é esperar pra ver e torcer, e sorte de quem não depende da Globo, já que a emissora sempre corta o início pra dar prioridade ao Big Brother Brasil.

Ladies and gentlemen... I've traveled over half our state to be here tonight
Em geral, todos temos medos de perder algo, seja alguém que esteja próximo de nós, ou mesmo um objeto de valor afetivo. Por isso, acaba sendo assustador quando nos deparamos com alguém que não se incomode com esse sentimento, ou pelo menos não deixe-o transparecer. O personagem de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro condiz com esse tipo de gente. Mas seria muito simples dizer que ele é mais uma daquelas figuras cinematográficas que fazem de tudo para ser poderosas. A persona de Daniel Plainview (a graça de seu personagem) é muito mais complexa, e vai sendo descoberta ao longo das quase 3 horas de filme por nós e creio que por ele.
Sangue Negro é passado no início do século XX (tem sua introdução no final de 1800), mas trata de assuntos que são atemporais como avareza e fanatismo religioso, que muitas vezes estão intimamente ligados, nesse caso entram em conflito. Enquanto Daniel Plainview inicia o filme como um minerador que descobre que pode obter sucesso na indústria do petróleo, por isso começa a investir na prospecção do óleo. O jovem pastor Eli, faz de tudo para que sua igreja (denominada "A Terceira Revelação") cresça. O encontro entre os dois ocorre quando Paul, irmão gêmeo de Eli vai a procura de Daniel e lhe conta - em troca de uma boa quantia - sobre uma região árida e ainda inexplorada pelas grandes companhias petrolíferas. Dessa forma Plainview se instala no local e à base de negociações vai se apropriando de todas fazendas e construindo seu próprio império a partir da prospecção de petróleo e do controle dos trabalhadores na região. Mas as interferências de Eli na busca pelo crescimento de sua igreja, acabam se tornando um obstáculo nos negócios de Daniel, e logo os dois estão se confrontando na procura de influências na região.
Apesar das suas habilidades em convencer o povo a fazer o que lhe convém (usando o filho como forma emocional de persuasão), Plainview ainda guarda um lado humano, mas conforme ele vai obtendo sucesso com tudo aquilo que investia, sua índole ia se modificando, demonstrando a complexidade do personagem. Na cena do "gas", onde há uma incêndio no poço de petróleo, é onde tudo se modifica drasticamente, além de nós observamos a absurda capacidade de direção dos atores e da belíssima fotografia, é incrível notar como a sua concepção dá outro rumo história e nós começamos a perceber Daniel Plainview como um homem definitivamente capaz de abandonar o pouco do que existia do seu caráter e tudo aquilo que possuia (como seu filho) em busca do capital.
P.T. Anderson, após pérolas como Magnólia e Embriagado de Amor (ainda não assisti Boogie Nights), mais uma vez é brilhante em sua direção, através de uma narrativa inconstante - ou talvez seria melhor falar mutável, pois esse termo parece um pouco pejorativo, mas nesse caso é fantástico, notem como o filme fica confuso (com contribuição direta da montagem e da trilha) quando Plainview começa a se aproximar de Henry Brands e quando esse ato é finalizado as coisas voltam a se encontrar -, ele nos dá uma bela mostra da onde a ambição dos seres humanos pode chegar. Além da cena já comentada nesse texto, não posso deixar de observar outras, como o batismo e a final, em ambas o embate entre Daniel e Eli é intenso, tratando de valores imorais como a submissão em prol de obter algo. Embora a relação de Plainview com a igreja de Eli talvez seja o único elemento que poderia ser mias bem explorado.
Daniel Day-Lewis demonstra com precisão nos gestos e olhares de seu personagem o motivo de conquistar o Oscar de melhor ator desse ano (e eu nem preciso ser vidente para isso né?). Paul Dano também faz um belo trabalho apesar de parecer levemente histérico em alguns momentos, ainda sim merecia uma indicação para o Oscar. A fotografia e edição do filme também são elementos marcantes, e por fim não poderia deixar de lado a trilha sonora introspectiva composta pelo mr. Jonny Greenwood, que para quem não sabe é o guitarrista do Radiohead. Aliás, se alguém estiver com curiosidade de ouvi-la, eu resolvi dar um upload, e aí está o link:
http://rapidshare.com/files/92387465/Jonny_Greenwood_-_There_Will_Be_Blood__2007_.rar
Nota: 80

A gente, como fãs que somos, não podemos deixar passar o primeiro trailer da quarta aventura do moço de terno aí de cima!! Trailer:
http://movies.yahoo.com/feature/indianajones.html?showVideo=1
Aproveitando, PARABÉNS PIPS!!!!!!!!!

Pensar em gravidez na adolescência é geralmente pensar em irresponsáveis jovens; beberrões, promíscuos, etc. À primeira vista pode até ser, mas chega aos cinemas "Juno", um esquivador de clichês cinematográficos. A proximidade com os clichês do gênero ainda não reconhecido (oficialmente, mas que já tem até festival em São Paulo), o indie, é o que cria a expectativa do espectador, para logo após seguir outro rumo. Claro que a trilha sonora tem suas identificações com esse 'gênero' como Cat Power e Belle & Sebastian, mas também trazendo velharias, que figuraram na lista da Billboard depois do lançamento do filme, como Buddy Holly, The Velvet Underground, entre outros.
Diferente de histórias de gravidez na adolescência, a jovem Juno MacGuff (Elle Page) não a esconde e muito menos fica se lamentando, isso traça parte de sua personalidade como uma jovem verdadeiramente forte, apesar de imatura, e que realmente parece saber o que quer sem saber o que quer. Não há apelações para o dramático; ela não deve manter relacionamento com o pai da criança, os seus pais não parecem tão chocados com a notícia (inclusive ajudam em todos os sentidos) e as únicas pessoas mais conservadoras do filme são os alunos do colégio de Juno. A personagem tem destaque, tanto pela força de Elle Page como sua maneira de encarar a gravidez e estranhisse que causa nos colegas. Ela se aproveita de cada momento que pode para exibir a barriga, soltar um sorriso irônico e sem se importar em fazer piadas, ao contrário de constrangedoras ou patetas, piadas de cunho altamente crítico não apenas de si mesma, mas de todos ao redor. É claro que a fórmula Gilmore Girls existe (piadas e falas rápidas com base na cultura pop/cult), entretanto a genialidade do roteiro é a de escapar pela tangente não deixando essa característica forçar demais os filmes que já vem nesse molde. Essa pose carregada de ironia, piadas e rock 'n' roll serve apenas para revelar a confusão de Juno em contato com a vida adulta, não dela, mas de outras pessoas. Quando decide entregar seu bebê a um casal rico, os Loring, vemos que ela ainda não sabe lidar com certos limites da vida adulta.
O casal Mark Loring (Jason Bateman) e Vanessa Loring (Jennifer Garner) são o retrato do mundo moderno, dois sonhadores. Mark é um ex-roqueiro que se 'vendeu' para a mídia para construir uma família e ao invés de amadurecer com a idéia de ser pai, ele começa a regredir passando por uma crise de meia idade ao se reconhecer, e se identificar, tão rebelde quanto a jovem que carrega seu filho, essa regressão o torna um adolescente patético não querendo crescer e vivendo de sonhos, agora, inatingíveis. Essa relação mostra a falta de tato de ambos, Juno e Mark, para criar vínculos na vida adulta, que esquecem dos tais limites que um casamento impôe. A inocência da menina é comprovada quando ela julga conquistar um amigo para falar sobre música e cinema, enquanto ele acredita encontrar nela a liberdade para as responsabilidades da vida. A película ganha força com esses personagens, que fazem parte de uma nova educação onde adolescentes demoram para se tornarem adultos. Por outro lado Vanessa é a mulher que sempre quis ser mãe, mas não da maneira correta, instintiva. É aquela mãe que gosta de dar festa de criança para reunir a família e amigas que têm filhos, gosta de bater várias fotos de seu filho para mostrar a todos seu amor, comprar novidades em lojas de crianças, etc. Sua falta de apego com o emocional, pouco mostrado e desenvolvido por Jennifer Garner, a tornam esse tipo de mãe.
Os personagens do filme não são caricaturas, apenas criam características maquiadas de esteriótipos, como o pai que aparenta ser superprotetor, mas é apenas uma pose (como todos os outros personagens que vivem da pose: cool, maduros, nerds, descolados, etc) ou a madrasta que horas parece uma pessoa indiferente e em outras uma pessoa carinhosa (aliás, a relação aqui mostra como enteados podem ser os verdadeiros causadores da discórdia). Em momentos como esse, as pessoas se tornam mais verdadeiras, capazes de quebrar suas próprias escolas de conduta, e é por isso que "Juno" é um filme verdadeiro, não está aqui para ter uma moral, é uma crônica bem humorada sobre gravidez e amadurecimento.

Javier Bardem em seu momento de êxtase
Quem lê a sinopse do filme Onde os Fracos Não Têm Vez, acaba achando que o filme é apenas uma historinha de polícia e ladrão. O cara que acha uma mala de dinheiro no meio do deserto, o cara mal que está atrás dele e o policial atrás de ambos.
Na verdade, o filme dos irmãos Coen acaba sendo muito mais do que isso. A força das duas horas do filme reside justamente na noção de que aqueles três personagens representam algo maior. Tommy Lee Jones é a espinha dorsal da história. O título diz respeito à ele e é nele que recai toda a desesperança, o sistema cansado e atônito de uma época onde matar virou algo totalmente banal. Época retratada no filme, lá pelos anos 80, época que perfeitamente poderia se aplicar à nossa.
Javier Bardem representa a violência pura e simples. Da onde ele veio? Pra onde vai? São perguntas sem respostas, assim como um ato de atrocidade cometido contra outras pessoas: não há explicação. Seu personagem é tudo aquilo que está tomando conta do sistema. Seu rosto sem expressão é impressionante, assim como seu método de agir, simplesmente igualando as pessoas à gados.
Josh Brolin é o cara comum, suscetível, ganancioso. É a maior parte da população, do sistema, corruptível, que quer se dar bem, que quer ajudar a esposa a ter uma vida melhor. É nele que a maioria vai se identificar. E é justamente ele que perde a vida, nesse jogo entre a violência e o sistema.
Três personagens, três representações maiores, que fazem do filme uma das melhores coisas dos últimos anos. Além disso, a maneira como os Coen jogam com o anti-clímax é brilhante. Cenas de embates não precisam ser mostradas pra sabermos como aconteceu, como é o caso do cenário onde é achado o dinheiro, ou mesmo da morte do Josh Brolin e da sua esposa. Quem dirá o final do filme, que deixa muita gente não entendendo nada. Mais um ponto positivo do filme.
Pra finalizar, é interessante a cena dos garotos no filme. Na cena em que o Josh Brolin cruza a fronteira, o menino dá sua jaqueta à ele depois do primeiro lhe dar dinheiro, e queria mais pela cerveja. É o cara comum sucumbindo. No final do filme, no acidente do Javier Bardem, vemos dois garotos e um deles lhe entrega sua camisa sem querer nada em troca. É o cara comum ainda inocente, não contaminado pelo mundo em que vive. Dois paralelos de uma mesma pessoa, em épocas diferentes. E assim, os Coen finalizam o filme com uma ponta de esperança.
Nota: 87

O nome dele é João
Ou se não vinha, começarei a partir de agora. Sou novo nesse blog e creio que com uma mão a mais para escrever, o Tisf e o Pips pretendem dinamizá-lo. Para haver um bom início, eu digo que não pretendo me prolongar na apresentação, afinal, enquanto eu for postando, vocês vão acabar me entendendo melhor. Então vamos ao que interessa...
É triste que logo no meu primeiro post eu venha a comentar um filme nacional que não tenha me agradado, mas me sinto na necessidade de falar o que penso sobre “Meu Nome Não É Johnny”. Baseado em fatos reais, é mais uma história sobre drogas, traficantes e elementos do gênero. O personagem principal é João Estrella (Selton Mello), um playboy na zona sul do Rio que desde a infância sempre teve tudo o que quis e através da filosofia de vida de seu pai cresceu não se importando em ser “alguém na vida” (em certo momento ele diz “a vida é como uma raposa, portanto, aproveite-a ao máximo” ou algo assim, enfim), e todo o dinheiro que tinha gastava dando festas. Até então, não há muito que criticar além do fato de ter como base uma história bem rotineira. O fato é que João começa a se envolver com um traficante (não me perguntem exatamente como isso acontece, sinceramente não consigo me lembrar). Rapidamente, ele passa da situação de cliente para a de vendedor. E a partir daí, mesmo quem não tenha assistido ao filme já consegue ter uma idéia dos contornos da trama.
O primeiro ato engana bem contando aquela básica historia sobre a juventude do rapaz. A coisa começa a ficar feia no momento que João começa a atuar como traficante. As primeiras cenas com o “Johnny-trafica” mantém aquele ritmo compra-vende, compra-vende. Quando o diretor percebe que isso não funciona e está se tornando entediante, eu tive a impressão que ele começa a cria uma serie de episódios e obstáculos para o protagonista. Contaram-me que o diretor Mauro Lima é conhecido por aí como um bom curta-metragista, eu pesquisei a cerca dessa informação (de fontes seguras) e não encontrei muito, se alguém puder me confirmar eu agradeço (nota: No imdb o único filme “relevante” que consta além desse na carreira do diretor é “Tainá 2 – A Aventura Continua”, etc), mas se ele realmente for diretor de curtas está aí um bom motivo para os sketches que se encontram no filme (algo como: Johnny e os policiais trapalhões, Johnny vai a Europa se divertir, Johnny e a prisão). Mas esse problema poderia ser menos relevante se os diálogos funcionassem bem, porém, o filme se sustenta nos diálogos, e eles são ruins. Digamos que eles conseguem enganar muito bem ao longo do filme devido às passagens engraçadas, e de fato elas são, mas isso se dá grande parte devido a algumas excelentes atuações como a do Selton Mello (o que não é novidade para ninguém) e de uma dupla de policiais (não sei o nome, mas são ótimos, especialmente o chefe) que acompanham João em um momento do filme. Mas nota-se a fraqueza dos diálogos que parecem ter saído de algum manual de auto-ajuda para sobreviver na malandragem das noites cariocas, especialmente por parte do protagonista, é uma quantidade de “bate-prontos” que chega a irritar em certo ponto do filme. Para piorar há um bom número de cenas com falhas grotescas e até mal conduzidas, como a forma (nenhum pouco convincente) encontrada para safar João e sua namorada (interpretada pela deliciosa Cléo Pires, que apesar disso não consegue se encontrar no filme) da blitz da polícia espanhola e a aparição final totalmente surreal do médico drogado, que se converte em uma das cenas mais constrangedoras do cinema nacional.
Após assistir há pouco tempo o “Cheiro do Ralo” que eu achei decente, “Meu Nome não é Johnny” foi uma decepção, não que esperasse uma obra prima, mas no mínimo algo que valesse o dinheiro gastado para a sessão. A minha nota antes de começar a escrever essa crítica era mais alta que 38, mas acredito que essa seja a cotação ideal para um filme que mesmo com uma enormidade de coisas que eu desgostei tem lá suas passagens divertidas.
“Kairo” é mais um daqueles filmes de terror japoneses que foram “premiados” com um remake por parte dos norte-americanos (que se chama Pulse), não tive oportunidade de assistir a versão ocidental e confesso que não tenho muito interesse conhecendo a procedência de filmes como O Chamado, e assim por diante. Portanto, vou me limitar a comentar do original. Kiyoshi Kurosawa é conhecido como um dos grandes diretores do gênero de horror no oriente, ainda não havia assistido nada dele e devido a bons comentários sobre o Kairo decidi que esse seria o primeiro. Creio que tenha feito uma boa escolha. O filme fala da relação da solidão com a modernidade em que vivemos, e como pano de fundo para discutir o argumento utiliza fantasmas que começam a surgir na internet e a partir dela vir ao mundo real. Pode se parecer uma temática um pouco bocó, mas para mim funcionou muito bem.
Nos seus (aproximadamente) 60 minutos iniciais o filme tem alguns problemas como certa falta de suspense nas cenas (aliás, o sujeito que produziu o trailer do Kairo é um gênio, ele adicionou mais dose de terror – visualmente falando – do que o filme tem nessa primeira metade), a trilha sonora é extremamente desagradável em alguns momentos, que seriam claramente mais aterrorizantes se houvesse silencio e a falha mais contundente é a metalinguagem desnecessária relativa ao tema de algumas cenas. Porém, o esperto Kiyoshi (não vou chamá-lo pelo sobrenome para não haver nenhuma confusão), apesar de todas as falhas mantêm alguns elementos misteriosos como uma serie de portas lacradas com fitas adesivas vermelhas, excelentes alegorias para reforçar o argumento do filme. Além disso, um sentimento de vazio (literal) vai sendo gerado no decorrer do filme. É a partir dos 40 minutos finais, que o filme torna-se caótico e trás a tona a solidão já comentada aqui. Para manter um mistério, e deixá-lo curioso para assistir ao filme, acho que não valha a pena comentar muito mais sobre essa segunda metade do filme. Só peço que atentem uma cena passada no metrô, que particularmente é minha favorita. Ah é, a música dos créditos é espetacular, mentira, é um J-Pop/Rock comum (Cocco - Hane Lay Down My Arms, para quem tiver interesse de procurá-la), mas o efeito que ela surte em contraponto a tensão do filme é excelente, algo como a canção no meio do Mal dos Trópicos invertida (porque lá a tensão começa a aparecer depois dela, PS: Isso é viagem minha). Nota 69.
|
||
|
|
||
|