Antes que o Última Sessão Crie Teias

Enquanto preparo a minha mala e a encho de coisas desnecessárias, sigo como quem não quer nada pisando nas salas de cinema. De vez em quando numa cabine (o que tem tornado-se cada vez mais raro, por incrível que pareça) e outras em estréias seguidas (para infortúnio, algumas não tão boas assim). Em dados momentos a televisão a cabo tem sido de grande ajuda, às vezes assisto filmes que nunca ouvi falar (australianos, finlandeses, argentinos e tantos outros etc.) e outros que muitas vezes constam na minha prateleira para revisão quando quiser. Não atento o tempo todo, resolvo falar apenas daqueles que figuraram pelas salas de cinema.

Puritanos egoístas se esquecem que “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” é diversão e que não podemos cobrar o vovô Harrison Ford (que se estivesse na minha família seria bisavô já) de trazer um personagem revigorado e coerente com sua idade. Se quiserem os filmes de antigamente, exijam outra pessoa para o fardo (o que não deve demorar)! A fórmula é a mesma: piadas, perseguições, cobras, etc. De novo mesmo só o chapéu e chicote a ser passado e finalmente um casamento. A história se atualizou (não apenas no contexto guerra fria, mas também do artefato que estão atrás) e não perdeu o vigor, apenas envelheceu com seu personagem, o que é muito bem-vindo. E espero que até Sean Connery consiga enxergar que Spielberg (e um pouco do Lucas) souberam aproveitar o que criaram na década de 1980 sem forçar a amizade. 

Outra seqüência é “Sex and The City”, que migra das telas de televisão para o cinema. Como grande parte das séries da HBO, não segurou pudores para falar palavrões e mostrar genitálias em nus frontais memoráveis. Entretanto o filme vai um pouco além, a lacuna que ficou durantes os anos que as amigas Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha ficaram separadas dos espectadores trouxe algo novo (não apenas se sustentando em referências a série para se tornar um episódio ‘esticado’, como muitos gostam de salientar para criticar). A essência da série num todo está lá: moda, glamour, amores e sexo em pequena proporção (aliás, para as personagens principais sexo falta mesmo). Claro que dessa vez apostando mais no drama (e devo dizer que a cena em que Carrie encontra o noivo fugitivo, amparada por suas amigas, foi um ápice do drama que realmente me chocou, tanto na cena em si quanto nas interpretações, não esperava tanto) do que na comédia. Contudo quando os traços de humor figuram temos um grande embate entre o conservadorismo e a futilidade. Os extremos que a série sempre fez questão de jogar um contra o outro e até seguindo juntos. Todavia, o filme não se prende apenas ao grande acontecimento, enquanto um casamento acontece, os outros parecem fadados ao fracasso e o teor cosmopolita não se prende a imagens da cidade, mas é ilustrado pelas descrições de cada personagem (Carrie com sua ambição inicial ao chegar em NY, Miranda e o Brooklin e por aí vai).

A seqüela (no português de Portugal) que não segue o original, e até o ignora, é “O Incrível Hulk”. Não existe uma (nova) origem, nessa película uma rápida introdução é apresentada para refrescar a memória dos espectadores. Bruce Banner realmente está na América do Sul, mas no Rio de Janeiro e não na floresta como julgou correto Ang Lee. As diferenças são evidentes, um apostava mais no drama psicológico (Ang Lee) no quê de O Médico e o Monstro e o outro vai além desse drama; joga mais ação, humor e referências para os fanboys (algumas: o Líder, a S.H.I.E.L.D, Os Vingadores). Entretanto umas das coisas que mais incomodam em ambos os filmes é a edição, se por um lado o filme de Lee insistia em dividir a tela como se fosse uma HQ, esse novo traz pouca tensão e cortes esquisitos para as cenas de ação/perseguição. O humor é simpático, não chegando aos pés de Homem de Ferro (aliás, a breve participação de Stark devora todo o humor do filme) e o romantismo entre Banner e Ross é até sensível, entretanto Liv Tyler é apenas bonitinha e não consegue dar uma pose respeitável como Jennifer Connelly. A luta entre Abominável e Hulk não empolga tanto, mas só de ouvir “Hulk Smash” (na voz de Ferrigno, que também faz uma participação bem humorada) toda a batalha valeu a pena.

Voltamos à NY pelo olhar de um cineasta veterano que nos presenteia com o melhor filme do ano até agora: Sidney Lumet e seu “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”. A narrativa entrecortada explora pouco a pouco a situação de cada personagem. Andy (Philip Seymour Hoffman) e sua aparente calma, antes apático e calculista trajando seu terno e gravata, são abalados pelo desespero crescente quando o dinheiro fácil não traz felicidade, mas infortúnios. Enquanto Hank (Ethan Hawke) é um homem sem expectativas na vida (frouxo como todos os personagens do filme o classificam), trabalha e vive como burro de carga para a ex-mulher e ser amante da mulher do irmão. Lumet cria o ambiente claustrofóbico perfeito; os interiores: salas com grandes janelas que criam a alusão à liberdade e os planos contra a luz mostrando algo inalcançável, duro e plástico. O inferno aqui não é onde estamos, mas como estamos. Com uma narração carregada de tensão opressora, ao optar por mostrar diversos ângulos de uma mesma situação (fazendo com que assim a antecipação por uma conclusão seja adiada e assim suprindo as dúvidas de que realmente não há fuga), a história simples de um roubo a joalheria da família, transforma o plano de Andy e Hank em um verdadeiro mar de erros rumo ao inferno, levando a família inteira à decadência.

Por fim não vale a pena falar sobre “Fim dos Tempos” de M. Night Shymalan. Personagens contraditórios com interpretações tenebrosas, cenas “chocantes” que não chocam tanto, teorias furadas e um desfecho fora de contexto. Ou ele realmente queria fazer um filme com tom de "Marte Ataca!" (que é bom, vejam bem), ou sei lá o quê (e olha que para escrever essa última frase eu hesitei, mas realmente, se ele não sabe o que quer, eu não sei o que eu assisti: uma comédia, um drama, um suspense ou uma paródia dele mesmo). E olha que eu não odiei nenhum dos trabalhos anteriores, inclusive gosto de "A Dama na Água" e "A Vila".

Fora os filmes que indico, ou não (como diria Caetano, se é que ele disse isso), fica a dica do blog formado por aglutinação de Luis Calil, Fabiano Ristow e Rodrigo Pinder.

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